terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Playlist #3 [mp3].



O que eu queria mesmo era mostrar a música Easy, de Dragonette, a quem ainda não a conhecesse. Mas depois compilei mais umas quantas cantigas, destes e doutros dias. A playlist é quase toda electrónica e quase toda bem-disposta. Quase. A Easy é a décima.

01. Au Revoir Simone - Another Likely Story (Aeroplane remix)
02. Pacific! - Hot Lips
03. Lady Gaga com Beyoncé - Telephone
04. Desireless - Voyage Voyage (extended edit)
05. Wave Machines - I Go I Go I Go
06. The xx - Crystalised (Rory Phillips remix)
07. Bear In Heaven - Wholehearted Mess (Pink Skull remix)
08. Hot Chip - Take It In
09. Wild Beasts - This Is Our Lot
10. Dragonette - Easy
11. Little Dragon - Blinking Pigs
12. Swayzak - State Of Grace (Silicon Scally remix)
13. Low - Breaker
14. Edward Sharpe & The Magnetic Zeros - 40 Day Dream

Direito de resposta.

Meu caro amigo Calssio
Dei grandes gargalhadas com o que escreveu sobre mim. Ou melhor sobre o barco que eu bem gostava de ter.
Adoro o humor paradoxal.
A unica forma de humor para pessoas saudaveis.
Porem fez a confusao do costume entre nudismo = naturismo = naturopatia e saiu-lhe um comentario sem nexo.
portanto esclareco-o: que eu conheca nem eu nem algum colega meu da consultas nu.
O Nudismo ate costuma ser praticado por pessoas que comem muitos produtos de origem animal. Como acontece com os lacto-ovo-vegetarianos.
Naturopatia tem a ver com obter a cura por meios naturais. So usamos remedios e mudancas no estilo de vida.
Ja agora tambem esclareco que remedios sao feitos a partir de substancias naturais enquanto os medicamentos sao preparados ah base de substancias de imitacao ou seja de sintese.
Tem ainda algumas outras imprecisoes. Mas passam lindamente incluidas no seu delicioso sentido de humor.
Portanto agradeco-lhe que corrija o seu erro.
Quanto a escrever desta maneira eh para nao aparecerem aqueles hieroglifos loucos que tornam quase ilegivel o que comunicamos.
De qualquer forma tambem fiquei contente em que o que eu escrevo o faca sentir-se melhor.
A si e aos comentadores.
Abrasso ;-)))

Maria Afonso Sancho

Querida Maria Afonso,

Sei bem que as cartas publicadas em regime de direito de resposta não costumam ter contra-resposta, mas a verdade é que isto também não é nenhum jornal. Tenho é de confessar que foi com um prazer próximo do indecoroso que li as palavras que com muy apreciável gentileza me endereçou - e que com todo o gosto aqui reproduzo. Eu não teria a presença de espírito que é precisa para googlar o próprio nome e comentar com simpatia as alarvidades que um qualquer pateta resolve escrever a nosso respeito. Até porque, para isso, seria preciso que alguém tivesse escrito uma frasezinha que fosse sobre mim (a não ser kurtia tar ctg, dd tc ou pena seres baixinho). Portanto, ouvir dizer que tenho um humor paradoxal foi, sem sombra de dúvida, o elogio da semana (e que importa que eu não faça puto de ideia do que isso possa ser).

Que fiquem corrigidos todos os erros que por ignorância ou pouca-graça cometi, na entrada sobre o barco que a Maria Afonso, eu e toda a gente gostaria de ter. E aqui fica a promessa: um dia destes, sou homem para experimentar a sua despachadona táctica de abolir aqueles hieroglifos loucos que quase tornam ilegível o que escrevemos. Acentos, ou lá o que é.

A Maria Afonso perdoe-me o abuso, mas eu tenho de lhe mandar
um beijo.

António.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

O homem entalado.

Depois de doze horas com o torso dentro do estabelecimento que se preparava para assaltar e o rabo espetado num beco de Almancil, o momento alto do dia deste romeno de 22 anos só pode ter sido o instante em que se viu livre para ser detido. Pior do ficar entalado numa janela e não poder senão aceitar que um magote de guardas e bombeiros nos tire as calças perante a assistência da população local, é ansiar com muita força pelo momento em que as autoridades lá conseguem levar-nos para a prisão. Nunca uma cela do Algarve pareceu tão acolhedora.

O Cálssio sabe que a remoção (propriamente dita) do assaltante durou apenas trinta minutos, sendo que as restantes onze horas e meia serviram para permitir que todos os homens, mulheres, crianças e animais domésticos almancilenses fotografassem, fustigassem e apalpassem os glúteos do gatuno. Abaixo, as imagens do incidente em versão legendada.

[em romeno] Se ao menos conseguisse alcançar aquele capri-soni que ali está...

Ó diabo! Cresceram-me umas pernas à parede da loja! Ah não, espera lá. É um homem que retirou a protecção da janela e tentou deslizar para dentro do armazém. Vou só tomar nota da marca do slip e chamo já os bombeiros.

[em romeno] Ó homem, mas quantas pessoas é que você chamou? Bastava um bombeiro, eu já oiço três vozes! Vocês não me desgracem!

...

...

A consternação entre os populares é evidente. O pesar da comunidade afro-algarvia perante o triste fado do amigo do alheio é, ainda assim, mais notório.

Ah, vens do leste para te encarcerares nas ranhuras dos nossos minimercados e agora fazes carícias. Baixa lá a coxinha, se fazes o favor.

Ou se queres, é à séria! Eu e o Tozé pegamos em ti e vai parede, vais tu, vai tudo! Ó Tozé, agarra aí o russo desse lado, ele está mesmo a pedi-las. Tira-lhe as Calvin Klein.

[em romeno] Tu olha que eu dou-te um pontapé, hã? Eu dou-te um pontapé! E também dou um pum! Chama-me mas é uma bombeira. É para partir, é para partir.

Ah foi ele que chamou por mim, sim senhor. Então mas ó Tozé, já que aqui estamos, explica lá...

... como é que era mesmo aquele exame à próstata que fizeste em Loulé?

Sabes qual é a tua sorte? É não teres feições nenhumas. Se tivesses uma cara normal e reconhecível, como as pessoas, iam fazer pouco de ti em todo o lado. E afinal és um magrinho.

A polícia autoriza a captura de imagens no interior do estabelecimento e o país vê-se obrigado a concordar: aquilo é que ia ser um assalto. Sorte marreca, malditas ancas.

A incendiária emocional.

Mas imaginemos que vai muito bem a andar na rua e um carro esmaga-lhe as pernas contra uma parede, disse ela, depois de eu explicar que já tinha seguro de vida e de saúde e que, portanto, agradecia mas declinava a oferta de mais um produto do banco, o seguro contra acidentes pessoais. Desarmou-me, a bancária. Um gajo fica um bocado sem resposta se dá por si confrontado com a hipótese de alguma protecção contra carros que nos esmagam as pernas contra paredes. A articulação de palavras subsequentes à enunciação desse cenário também demora, porque dez segundos não chegam para recuperar do choque que é ouvir a senhora do banco a recorrer ao gore para ganhar comissões. Ela podia ter falado num mero atropelamento, numa agressão, na sacramental eventualidade de nos cair um poste em cima, mas não. O isco para aderir àquele seguro foi fazer o potencial cliente visualizar o aniquilamento acidental do poderio que existe da cintura para baixo. Vivaça, a tipa. Mas não tão vivaça que me impedisse de balbuciar qualquer coisa acerca do mau-gosto daquela imagem. Pernas para quê, se nos dão cinco mil euros em menos de vinte e quatro horas? É ver-me ali entrevadinho entre ferro e cimento e pensar logo na boa ideia que foi dizer que sim ao seguro. Portanto thanks but no thanks, meta lá a viola do terror ao saco, a mim não assusta você, sua incendiária emocional.

Aproveito só para dizer que quaisquer conjuntos de três toques sobre madeira serão, contudo, muitíssimo apreciados pelas tesas pernas de quem vos escreve.

domingo, 15 de Novembro de 2009

Boca das urnas.

Eu gostava era de saber se o vosso voto disse respeito à questão que foi levada a referendo, ou se até em sondagens patetas acerca das opções de guarda-roupa de um político-antes-de-o-ser dão uso à modalidade do sufrágio de protesto. Ai tirou o curso a um domingo, assinou casernas que um engenheiro de quarta categoria em má-hora edificou, construiu cidades do consumo em cima de reservas naturais e foi morar à grande à pala disso, mandou bater na Manuela Moura Guedes e deu calculadoras cheias de erros ortográficos aos miúdos? Então digo já que os sapatos que usava em 1986 metem dó e acabo-lhe já com a tosse.
Mas se calhar não. Às tantas votaram todos em consciência, foram exímios na arte de distinguir estética e política e cingiram-se apenas à problemática dos sapatos. Olharam para o modelo, tentaram pensar se seriam capazes de calçar aquilo, deram desconto ao intervalo de vinte e dois anos e ao calçado que a Covilhã de então podia oferecer aos seus filhos - e lá decidiram.

Pois bem. O universo de 75 leitores do Cálssio que aceitou pronunciar-se acerca desta relevante matéria decretou: os sapatos do engenheiro metem dó. Para 54% dos votantes (41 indivíduos), expressões como terrível, nojento, oversized, labrego, incompetente ou unhas dos pés encravadas afiguraram-se mesmo como as mais indicadas para descrever a socrática opção.

Importa dizer que os endereços de email de todos esses fascistas e/ou vermelhões foram já enviados para São Bento, devendo os mesmos aguardar com serenidade o momento em que serão democraticamente asfixiados pelo Nosso Primeiro. Como a abstenção foi muito grande, o referendo não é vinculativo, estando o engenheiro à vontade para calçar o que entender - o belo do téni que a imagem documenta, mas também sandálias, sapatos de vela sem meias, galochas, pantufinhas de lã, sabrinas ou o que mais lhe aprouver. Para a semana, debate alargado sobre o processo de branqueamento dentário a que se submeteu o líder do CDS/PP.

sábado, 14 de Novembro de 2009

Como se eu confiasse em 455 pessoas.

A teoria não é minha, mas concordo em absoluto com o que disse o escritor Valter Hugo Mãe. Havia de haver uma lei que obrigasse todos os estranhos que se fazem nossos amigos no Facebook a serem-no realmente. Com tudo o que isso implica, claro. Deixava de haver impunidade para quem clica em add as friend, porque quem o fizesse teria de declarar-se disposto a receber telefonemas a horas impróprias, a oferecer copos, a falar de nós aos pais, a servir de receptáculo para a exposição de dilemas emocionais e a passar a noite dos óscares em claro, em nossa casa. O pessoal pensava duas vezes antes de aumentar a colecção de cromos nas redes sociais porque com isso abdicava da conveniência que é comunicar apenas através de caracteres com zero graus de espontaneidade. Tinham de estar mesmo connosco e era o que faltava que asteriscos e parêntesis rectos na nossa wall pudessem substituir beijos e abraços à séria. Até porque se se pusessem a escrever coisas nas paredes das nossas casas, levavam na cara. Seguravam-nos na testa quando o gin desse de si - e aí sim, percebiam que o amigo que tinham adicionado (por causa de uma foto em ângulo favorável ou de uma rede de contactos comuns alargada) tinha muito mas muito mais para dar que uns míseros likes aos seus links.

Lixavam-se, evidentemente.

Ei-la.

Apresento-vos a grande responsável pela recente parca oferta deste blogue. Visitantes do Cálssio, esta é a minha quinta. Enquanto não tenho moedas para mais, planto framboesas, abóboras e algodão. Tenho os animales todos juntos a um canto, para não me roubarem espaço ao cultivo. Tenho, também, a respectiva Sociedade Protectora à perna. Vendo as cabras que me oferecem porque acho-as más e porque desconfio das cabras em geral. Declino ofertas de bebedouros para pássaros, fardos de palha, mesas de piquenique, tendas de descanso e mariquices afins. Na minha propriedade, trabalha-se. De resto, não descanso enquanto não ultrapassar a experiência agrícola de todos os meus vizinhos. Vou ser o latifundiário to rule them all.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Os sapatos do engenheiro.

Covilhã, 1986. Na fotografia, José S. Carvalho Pinto de Sousa, futuro gerador de frustrações nos conterrâneos que fariam gala em ter um primeiro-ministro atrás das grades. Sem o apelo do grisalho, ainda com franja à foda-se, a vinte e dois anos de ser nomeado o sexto homem mais elegante do mundo. A referendo, neste blogue, vai o invólucro dos pezinhos dispostos à Chaplin. Os sapatos são giros ou metem dó? Urna aqui à esquerda.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Jerry Fuchs 1975-2009.

Para poder opinar sobre isto com propriedade, precisava de saber a média diária de mortes de elementos de bandas musicais e a de quedas para poços de elevadores. Mesmo sem dispôr desses dados estatísticos, arrisco dizer que o homem morde o cão com mais força no caso dos acidentes com caixas destinadas à locomoção vertical. Um nova-iorquino ter tentado saltar - sem sucesso - para o piso adjacente ao local onde o ascensor em que viajava bloqueou deve ser mais raro do que um músico quinar. Daí que noticiar que morreu Jerry Fuchs, baterista de !!! e The Juan MacLean, não seja tão relevante quanto escrever: ser humano ouve o grito de queda no vazio que um amigo solta e o o som a que o embate dos seus ossos na cave de um prédio dá origem. A notícia, bem vistas as coisas, é esta.

The Juan MacLean - Happy House
!!! - Myth Takes

domingo, 8 de Novembro de 2009

Filmes novos em torrents.

(clicar para ver melhor)

Cópias de grande qualidade de todos estes filmes já andam à solta. Aqui.

Sobre ser balarina.

Há dias, depois de assistir ao espectáculo de dança contemporânea Liars, coreografado por Inês Jacques, deu-me para divagar (ainda que com muita ligeireza) acerca das mulheres que têm a hipótese académica e profissional de se apresentar ao mundo como bailarinas. Perguntam-lhes o que fazem e elas respondem: sou bailarina. Quiseram sê-lo nalgum instante ocorrido entre os cinco e os doze anos, insistiram e passaram a perna aos que quiseram ser domadores de leões, floristas ou espiões e que acabaram como engenheiros informáticos. As bailarinas curtem largo porque sabem que quando dizem sou bailarina, o que soa é sou fada. Ou sou princesa.

A questão também pode ser transposta para o universo dos homens que dançam, embora com estes o cartão de visita não surta exactamente o mesmo efeito de encantamento. Porque quando dizem sou bailarino, o que se ouve também é sou princesa.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

O Moreira é nabo.

Reparem como a jovem que segura o cartaz está a olhar na direcção contrária àquela em que todos os outros adeptos estão fixados. A ver pela boquinha ansiosa dos elementos masculinos daquela bancada, certamente que o esférico está a centímetros da baliza adversária, mas ela quer lá saber. Eles só lá foram ver a bola, mas a miúda está no estádio para cobrar compromissos celebrados além-fronteiras por um certo guarda-redes. Não estar vestida de azul ou verde foi um pau. Sim, Moreira, porque isto não se faz - promessas feitas a crianças são para cumprir, sob pena de ficar a garota traumatizada e nunca mais querer pôr os pés na terra dos chocolates e dos relógios. E já agora também era giro saber em que circunstâncias é que semelhante combinação teve lugar. Porque é que na Suíça não pôde ser? Doía-lhe a cabeça, era? Teriam as investidas da bola alheia deixado o glorioso jogador derreado? E não seria a miúda merecedora de um mísero número de telemóvel, ao invés de ter de ir para o estádio ver futebol e segurar cartazes que mais parecem pedidos de socorro?

Suponho que a moreirense esposa concordará comigo acerca da necessidade de vermos estas dúvidas esclarecidas.

D.I.S.C.O.Texas & In Flagranti.

Para fazer mais uma das titânicas festas que primeira quinta-feira do mês sempre acolhe, o colectivo D.I.S.C.O.Texas e o Lux acolhem, daqui a bocado, o duo In Flagranti. Engrossa-se a fornada de cúmplices no crime de organizar noites boas e - coisa grande - comemora-se o lançamento oficial do primeiro disco D.I.S.C.O.Texas. Abaixo, dois aperitivos - uma música dos convidados especiais, a outra remisturada pelo anfitrião Moulinex e editada na fresquíssima (e obrigatória) colectânea Kitsuné Maison 8. Do Lumiar para o Texas, segue um abraço de parabéns aos rapazes. E viva o ananás!

Two Door Cinema Club - I Can Talk (Moulinex remix)
In Flagranti - Business Acumen

Entretanto, em Amares.

(cliquem, por quem sois, vejam em tamanho grande)

Se olharmos para uma reportagem do Correio da Manhã e constatarmos que o José Castelo Branco era a pessoa mais distinta de um determinado evento, das duas uma: ou o José Castelo Branco estava completamente sozinho, ou esse evento era uma festa da danceteria Lagar's, em Amares, e tinha como restantes headliners o contador de anedotas Fernando Rocha, o arruaceiro Jel e, a fazer de cerejinha, Linda Reis - a Pomba Gira. Em estreita e exclusiva colaboração com a Lagar's e o matutino que fotografou o acontecimento, o Cálssio apresenta uma inovadora fórmula para induzir o vómito e, assim, destronar a Água das Pedras, o guronsan e a acção conjunta do indicador e do anelar pela goela acima. Querem bolsar e não sabem como? O almoço deu-vos uma azia que estão aí que nem podem? São bulímicos? É colocar o post do strip integral da Linda Reis na barra de favoritos e deitar toda essa má-disposição à rua.

A réstia de pudor que em mim sobrevive inibiu-me, porém, de publicar nesta casa as derradeiras imagens da actuação da estrela que o Herman José descobriu e com quem Deus conversa, sempre que a filha do Solnado está a dormir ou com pouca paciência para O ouvir. A Pomba Gira agraciou os convivas de Amares com a exposição forçada da idosa camada de celulite de que está revestida, mas não se ficou por aí. No way, Jose! Se seguirem este link, podem ver com os vossos próprios olhos que forma arranjou a Pomba Gira para dar novo sentido à palavra nojento.

Mas atenção: o acesso a fontes fidedignas ali presentes (a saber: a fornecedora de rissolinhos que teve o infortúnio de estar naquele sítio, àquela hora) chega para que possa ser adiantado, sem margem para dúvidas, que são calúnias as notícias que designam como desconhecido o indivíduo que a sensual stripper chamou para o palco. O Cálssio sabe que Linda Reis seria incapaz de se ajoelhar frente a um homem que não fosse da sua inteira confiança. De maneiras que levou o neto.


Desculpem-me a crueldade, mas não quis ser o único a ter de viver com o mau-estar que o visionamento daquelas imagens em mim provocou. Prometo tentar compensar a coisa com uns posts sobre uns assuntos assim mais eruditos. Se ao menos morresse um grande pensador, sempre podia tentar disfarçar o mau-gosto com um obituário e uma citação profunda...

Claude Lévi-Strauss 1908-2009.

Language is a form of human reason, which has its internal logic
of which
man
knows
nothing.

V.2009.

Há meses que tinha um papelinho amarelo colado no monitor. Hoje, esse papelinho cumpriu a sua função e lembrou-me que já posso ir ver que tal está o remake da série V, a história de alienígenas mal-intencionados que - derivado ao controlo maternal sobre mim exercido, durante os anos oitenta - tive de ver à socapa, a preto e branco, num televisor desactivado que eu reavivava para o efeito. A invasão extraterrestre chegou ontem ao canal norte-americano ABC e foi a estreia com maior audiência do ano. O trailer está aqui e o torrent do primeiro episódio aqui. Vou ver mãe, vou ver. A cores e enquanto fumo cigarros. Já estou a sacar. Come and get me.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Judite.

Aprecio a criatividade da polícia portuguesa. Quando for grande, também quero dar nomes às operações de combate ao crime conduzidas pela Judiciária. Sento-me atrás da secretária - óculos de massa apoiados nas orelhas e coldre bem aconchegado junto à pélvis - e leio a transcrição de escutas. Depois olho através da janela embaciada sobre a cidade lá fora, respiro fundo e transmito aos inferiores hierárquicos as expressões poéticas que melhor vão traduzir o teor da investigação em curso. Poiso os óculos e digo que tudo isto se assemelha a uma Face Oculta. Morre a salvação com a Operação Furacão. Está tudo errado com este Apito Dourado. Que cavalos são aqueles sobre aquela Noite Branca e assim por diante, até ao fim dos dias.

Sobre o guarda-roupa de This Is It.









Apesar dos rios de tinta gastos a escrever sobre a vida, a obra e o legado de Michael Jackson, espanta-me que muito pouco tenha sido dito, ao longo dos anos, acerca de uma das características do malogrado que com maior ferocidade saltavam à vista: o seu hediondo guarda-roupa. Uma observação atenta das indumentárias que Jackson enverga em todas as cenas do documentário póstumo This Is It é meio caminho andado para que suas as intervenções estéticas pareçam um mal menor. Um tipo olha para aquela combinação de cores, materiais, cortes e tecidos e dá por si a evitar pensar que há males que vieram por bem. Imaginem vocês os acessos de taquicardia - senão mesmo de cegueira súbita - que tanto dourado e tanto brasão iriam provocar na assistência da digressão que por paragem cardíaca se frustrou. Cinquenta noites seguidas daquilo.

O problema desta gente é que atingem um ponto tal de isolamento e demência que deixa de haver quem lhes diga ouve lá, ó Michael, vais nesses preparos? É com essas calças cintilantes que sais à rua? Com esse casaco três números acima? Com essas coroas bordadas nas calças? Nada, ninguém lhe diz nada. O homem preparava-se para subir ao palco nas figuras que as imagens acima documentam e não havia quem pusesse um travão naquilo.

Tirando isso, gostei de This Is It.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Playlist #2 [mp3].



Como se a selecção musical não fosse luxuosa o suficiente, ainda vo-la ofereço numa cassete Louis Vuitton. O Cálssio é um blogue que dá.

01. Grace Jones : Williams Blood (Aeroplane remix) - O discosound, versão 2009.
02. Tilly And The Wall : The Freest Man (CSS remix) - Pop delicodoce, remisturado por Cansei de Ser Sexy.
03. The Cure vs Robyn : Close To Konichiwa - Mashup perfeito, para dançar.
04. Roisin Murphy : Orally Fixated - Reminiscências de Janet Jackson, 1986. Lançada ontem.
05. Echoboy : Good On TV - Sei que isto é um cover de alguém. Alvíssaras a quem souber de quem.
06. Four Tet : Love Cry - O ritmo todo em nove minutos. Novíssima.
07. Fuck Buttons : The Lisbon Maru - Lisbon, mas não a nossa. O esclarecimento aqui.
08. Pluramon & Julee Cruise : Time (Catharsia remix) - Banda de post-rock com a voz de Twin Peaks.
09. Set In Stone - Fires Of Rome (M83 remix) - Há qualquer coisa de Supertramp nesta música. In a good way.
10. DM Stith : Braid Of Voices - Quer cortar os pulsos num delírio melancólico? O Cálssio fornece a música.
11. Bliss com Ane Brun : Trust In Your Love - Uma voz doce da Noruega a dizer que não quer esperar mais.
12. Lou Rhodes : There For The Taking - Música nova da vocalista de Lamb. Triste.
13. Kings Of Convenience : Free Fallin' (ao vivo) - Cover de Tom Petty. Dedicado à T, que amanhã vai ver os meninos (e em agradecimento por este post).
14. Bon Iver : Wolves (ao vivo) - Ligação directa de Glastonbury à alma, com especial colaboração do público.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Paranormal Activity.


Custou meia dúzia de dólares e foi rodado em sete dias, na casa do realizador. Está a tomar a bilheteira norte-americana de assalto e alguns dos ecos que de lá chegam garantem que é o filme mais assustador de todos os tempos. Paranormal Activity obedece a todos os mandamentos da escola Blair Witch de fazer filmes - registo documental, actores desconhecidos, ameaça sobrenatural, investigações inconclusivas e posterior disponibilização de imagens suspostamente reais para a montagem do filme que vemos. Um casal de namorados incomodado por fenómenos estranhos resolve comprar um câmara de alta definição e filmar tudo. Coisa que faz todo o sentido, porque a primeira coisa de que qualquer um de nós se lembraria se
  1. os objectos lá de casa sofressem combustão espontânea,
  2. nos sussurrassem o nome ao ouvido durante a noite,
  3. acordassemos com o quarto cheio de pegadas vindas de nenhures,
  4. fossemos arrastados corredor fora por uma entidade invisível ou
  5. esmurrassem a porta do nosso quarto durante a noite

era ir à Vobis comprar uma câmara de alta definição e um tripé. O torrent (de excelente qualidade) de Paranormal Activity está aqui. E eu adoraria dizer que o filme não vale nem um décimo do hype de que tem gozado... se não tivesse ficado realmente arrepiado durante uma cena ou duas. Por esses dois momentos - e apesar do tédio, da implausibilidade, da contínua vontade de fazer passar por realistas comportamentos que ninguém teria - um décimo acho que vale.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Emiliana Torrini na minha parede.

Eu disse see you later, como se fosse vê-la ao Santiago Alquimista daqui a bocado.
Menti.

Três concertos [mp3].

Deixo-vos aqui links para o download de três grandes concertos.

António Sérgio 1950-2009.

Uma das funções da rádio é espalhar magia: nós não temos cara, temos vozes, e isso ajuda a incendiar o imaginário dos ouvintes. Esta rádio de hoje, coitada, não incendeia absolutamente nada. Põe o ouvinte a um canto e diz-lhe: ouve isto, que não te maça, não te assusta, não te provoca.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

As rosas.

Ela tinha adormecido furiosa com o namorado. Fim-de-semana romântico em Paris e a primeira noite passada a contar tostões em vez de luzes ou mesmo carneiros, deitada na camarata de um hostel onde os filhos do islão roçavam a maioria absoluta. Lindo serviço. Dormiu tão ultrajada com a falta de tacto do namorado que às sete da manhã abriu a pestana. Viu, então, que na mesinha em frente do beliche onde dormia, ela em baixo e o pelintra em cima, estava um colossal ramo de rosas. Muitas, muitas, algumas brancas mas a maior parte encarnadas. Todas bem podadas.
Passou-lhe logo o ultraje, claro. Tinha mau feitio mas não era preciso muito para que voltasse a conseguir mostrar os dentes, empolgada e bem-disposta. Nessa madrugada em Paris - que de repente voltava a ser feita de romantismo - um ramo de flores aos pés da cama foi tudo o que precisou para voltar a sorrir por estar ali, com ele à distância de um esticar de perna para cima e a cidade toda à espera. Tão querido, esperou que adormecesse e foi buscar flores. Muitas, muitas.
Não aguentou. Eram sete da manhã mas também não tinham viajado para dormir. Esperava Paris e esperava, impaciente, o beijo que ela queria dar-lhe. Trepou as escadinhas, colou o peito às costas dele e com a boca mordeu-lhe o pescoço. Tantas flores, Francesco! Obrigado, meu amor. E deu-lhe o beijo que tinha em atraso, no exacto ponto da pele que quatro segundos antes mordera. Assim ele acordou. E ainda acordou a tempo de a ouvir repetir: adoro, as rosas são lindas.
Ela tinha adormecido primeiro, de facto, por isso ele sabia mais coisas sobre a camarata. Não chegou a lamentar nem a achar graça a nada, porque os olhos continuavam fechados e todo ele era sono. Mas percebeu de que é que ela falava. E disse-lhe só:

- Ó Sara, dorme. Não mexas nessas rosas, que são do indiano que está aí ao lado.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

O barco de Maria Afonso Sancho.





No blogue do João Chaves passou a escrever, também, uma senhora chamada Maria Afonso Sancho. A Maria Afonso Sancho é nutricionista e naturóloga e, para além disso, apresenta-se ao mundo como especialista em bem-estar e espiritualidade. Ora, apesar de ainda não ter tornado público que tipo de benefícios encontra ela pelo facto de dar conselhos de alimentação toda nua, não há dúvida que os artigos de opinião que assina no blogue do supra-nomeado cabeleireiro contribuem, em grande medida, para o bem-estar das pessoas. Senão de todas as pessoas, pelo menos da pessoa que agora redige estas linhas.

Até à entrada em cena de la Sancho, visitar a casa do João Chaves (a virtual, entenda-se) era comprovar até à exaustão que o método David Motta de assinar blogues fez escola, de facto. Ainda que até para o copy-paste de imagens de moda, design e luxo seja preciso bom-gosto, a verdade é que aquele que disputa com Eduardo Beauté e Isabel Queiroz do Vale o troféu de Mais Famosa Dona de Salão de Portugal tem ali umas coisas giras. Capas da Vogue ao calhas, manequins a preto e branco só com uma toalhinha à frente, interiores de hotéis onde nunca poisará os reais pés, jóias penduradas em fruta da época e um nunca acabar de petiscos para os olhos e gatilhos para a inveja. A futilidade como modo de vida - e porque não? Só que os conselhos espirituais da Maria João Sancho vieram dar outro gosto àquilo. Talvez para contrabalançar o cabeçalho onde figura um João Chaves altamente estilizado e em tons de rosa-choque, tudo o que a Maria escreve é pura harmonia. Pese embora o total desprezo pelos acentos ortográficos, esta mulher destila sapiência e sensatez. Assim sendo, e porque me custa ler estas coisas sem as partilhar com alguém, passo a reproduzir excertos (comentados) do texto que acompanha as imagens de um fabuloso iate da Hermés. Maria Afonso Sancho no seu melhor.

  • Eh surpreendente, este barco, quando visto de cima. Parece uma proa perdida no oceano. - Já de lado, mete nojo. Parece uma traineira.
  • De frente ateh tem um ar bastante convencional. Para garantir um minimo de navegabilidade. - Aquela água toda à volta também já está muito vista. Mas faz falta, para garantir um mínimo de navegabilidade.
  • Todos estamos eh fartos de barcos acanhados. - Dizer que estamos todos fartos é pouco, querida Maria Sancho. Já ninguém dorme com os nervos que a existência de barcos acanhados em nós despoleta.
  • E dentro tem uma arvore com um pouco de prado. Para os caes nao terem de ser levados ao jardim? - Claro que sim, é para isso mesmo que está lá a árvore. Porque a primeira coisa que pensamos quando entramos no nosso iate de luxo desenhado pela casa Hermés é: mas onde é que vou pôr o cão a cagar? Nice, está ali um pouco de prado no meio da sala. Ali Sinupe, ali!
  • Acho que eu preferiria ter um barco destes que uma grande casa. - Ah, eu cá acho que preferiria ter uma casa tão grande que coubesse lá o mar todo. Mais o barco.
  • Soh estou com uma duvida: como eh que ele atraca? - De proa, evidentemente.
  • Mas entao onde fica o lugar para o helicopetro, ou lancha, para ir a terra? - Mas ir a terra fazer o quê, Maria Afonso? Se já nem precisas de levar o cão ao jardim?
  • Vou continuar a pensar nisto. - Convém explicar que as nutricionistas-naturólogas têm o dom de se auto-esclarecerem acerca do lugar onde são instalados helicópteros e lanchas, se para isso recorrerem à força do pensamento continuado.

Endireita mazé o tapete.

(clicar para ver melhor como a nova ministra é uma desarrumadona)

Pero que las hay.

Das duas, uma: ou caio no ridículo de comentar os meus próprios posts, ou removo algum dos considerandos que vocês aqui lavraram. Agora ficar muito mais tempo com a contabilidade dos comentários congelada no número 3666 é que não. Só estão bem é a arreliar as pessoas.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Amor em tempo de fama.

Li algures que a imprensa britânica critica a cantora Leona Lewis por manter uma relação com um electricista. A diferença de estatuto social entre os dois devia ser, de acordo com os tablóides londrinos, motivo de sobra para que a intérprete de Bleeding Love dispensasse os serviços sentimentais daquele anónimo indigente. Apesar de namorarem desde os dezassete anos e de nunca ninguém ter ouvido falar de Leona Lewis antes da sua participação, em 2006, no programa de talentos X-Factor, o sucesso entretanto alcançado já devia fazer com que ela olhasse para si própria como realeza e arranjasse um consorte com mais curriculo. A Leona diz que não percebe esses argumentos e jura que tem pena de quem acha que a fama não é compatível com a manutenção de uma relação antiga. Tocam os violinos e achamos todos que ela tem a cabeça no lugar, que não se lhe subiram os primeiros lugares nos topes e os grammies à cabeça, que rapariga bem-formada e tal.

Mas já agora, queremos saber quem é o electricista. Isto do amor é tudo muito bonito, mas para que possamos opinar com propriedade acerca de quem tem razão nesta história - se Leona Lewis e seu discurso de amor e uma cabana, se o Daily Mirror e a divisão de classes aplicada aos assuntos do coração - temos de conhecer a figura. Tiro-vos da miséria em que acabo de vos colocar e esclareço, depois de olhar para esta fotografia (e mais esta e esta e esta), que não é desta que a imprensa sensacionalista britânica alcança a remissão por décadas de mau jornalismo. Um gajo escreve Leona Lewis and boyfriend no google images e fica a saber que as redacções inglesas estão pejadas de gente mentirosa, mal-formada e, acima de tudo, muitíssimo invejosa.

Como se algum dos repórteres manhosos que escrevem naqueles pasquins fosse capaz de providenciar à Leona Lewis alguém que, para além das evidências demonstradas, estivesse profissionalmente apto para lhe mudar as lâmpadas em casa. You go, girl!

Sois venenosos.

Passam-me um link com um LOL acopulado. Sigo a hiperligação e o que tenho a oportunidade de ler é um banner onde é feito uso imaculado da segunda pessoa do plural do verbo ganhar. Vós, membros da equipa de futebol online que se presta a este concurso de toques para telemóveis, ganhastes. Fostes vencedores. É o domínio sobre a língua e a orgulhosa aplicação de pretéritos que só por injustiça e desamor a Camões podem estar a cair em desuso. Mas o pessoal faz pouco do banner. Gozam, passam ao próximo, desdenham da gramática alheia. Mas porquê, afinal? Será que deixou de haver lugar para uma saudável convivência entre o mundo dos downloads e ringtones e a referência a vós, senhores?

No blogue que divulgou o banner, numa de induzir gargalhada, meia-dúzia de pespinetas lançam larachas ao autor da frase que parabeniza os vitoriosos. Escreveu ganhastes com ésse no fim, o bronco. Como se o singular alguma vez fosse aplicável a um jogo da bola. Futebol é plural, caramba! Tu não ganhaste nada sozinho, vós ganhastes em conjunto! Era a vários ganhadores que o escriba daquele anúncio estava a referir-se e, por isso, ali não há erros - há só respeito, cerimónia, consideração à maneira antiga pelas excelências a concurso.
Tenhai juízo.

Já sobre o significado de encestes e o pretérito em que esse misterioso verbo está a ser conjugado, o Ciberdúvidas não tem respostas.